quarta-feira, 13 de maio de 2009

a bicicleta e eu

pego a bicicleta e me mando.
horas pelas ruas até o limite.
é uma aventura, para mim que exerço isso como um evento fora da rotina. mas quero partir de onde moro até o centro. ultrapassar esses anéis. o primeiro já é limitado pela avenida rondon pacheco onde preciso "carregar a companheira" nas costas para transpor e encarar a subida do bairro lídice e fundinho. aqui eu já passei por loteamentos do setor sul e patrimônio. A relação da bicicleta já de início passa para o "empurrar a bicicleta morro acima". um espaço urbano que se transforma rapidamente, propondo táticas de lida com o lugar, hora com descidas frescas e hora com subidas quentes. enfim. já no centro (outro anel, ou a mistura de todos eles), resolvo encarar (com o termo "detonar", utilizado por gláucio aqui, na cabeça) esse "tumulto". ou eu dou lugar o tempo todo aos outros maiores e não saio do lugar ou eu me faço presente. opto pela segunda e me sinto um estrangeiro na própria cidade. o tempo da bicicleta alí naquele contexto me faz achar graça. nunca tinha sentido falta disso. um tempo contemplador. porque vivemos com as determinações de que o centro é isso, é o caos, é a ilegalidade, o comércio informal, os bancos, essa mistura toda. tive espaço sim. correndo riscos mas tive. um passeio pela avenida afonso pena às 12 horas.
encontro no mercado municipal a possibilidade de almoçar com minha companheira bicicleta sem cadeado ao lado.
sigo através do bairro martins (ultrapassando para outro anel) novamente. uma leve subida. e encontro um bairro até bem animado por uma experiência de escala interessante, dada por suas características históricas de ocupação com uma mistura de uso. chego no topo e começo a descer até o limite: a rodovia e os pés do bairro roosevelt. sinto uma vida que acontece muito além daquilo que frequenta minha memória. lugares em que a janela cumpre seu papel no limite com a calçada.
para transpor esse anel, vou buscar um carro e volto.
Retorno ao centro, sigo sentido canal joão naves e dalí chego ao campus santa mônica. pego uma carona de volta ao bairro martins onde eu e vir vamos conferir um objeto curioso. um "predinho" que junto com seu entorno configura um contexto percebido apenas ao pedestre e ao ciclista (imagens deste lugar no último vídeo da postagem anterior).
do centro meu destino é minha casa. não poderia ser outro. busco o canal francisco galassi, que é uma avenida conhecida e inserida no bairro patrimônio, um dos locais de origem da configuração urbana uberlandense. o hábito de transitar dentro do carro por este lugar foi bom. bom porque, pela primeira vez em mais de quatro anos, passo a pé por esta avenida, empurrando a bicicleta, e tenho o contato de uma única vez com a grande desocupação dos imóveis e cômodos (muitos ainda de tijolo de barro) deste lugar. um lugar que vai se descaracterizando pelo tempo. e não deve ser por vontade dos próprios moradores. penso que é como uma pressão não muito consciente de que alí é a "zona" sul. chego em casa pensativo e cansado.

vou escrever somente mais um pouco sobre esse fato de viver em um espaço onde não coloco meus pés no chão. é incrível.
quantos lugares que eu acho que conheço, mas que eu nunca pisei.
nenhuma experiência pode ser comparada com a experiência do corpo. a mente não consegue estabelecer uma relação imaginária do que é ocupar certos lugares, baseado em qualquer conhecimento teórico que for. é furada.
as largas avenidas de conexão aqui desta cidade nada tem a ver com liberdade de trânsito e de possibilidade de ocupação e trocas espacias e muito menos sociais. vivemos uma uberlândia segregada por limites socias. embora os limites espaciais devam ser considerados pelo custo que significa transpor anéis. me senti muito feliz em ver que a bicicleta nos oferece uma liberdade que está entre o "poderoso" motoqueiro (que gasta gasolina) e o livre pedestre (com limite de percurso). uma novidade.
percebo que existe uma cidade para cada. poucas possibilidade de se tornar coletivo. uma cidade que é dada pelas possibilidade de transposição particular de cada pessoa. e pronto. quando essa possibilidade permite grandes transposições, elas estão vinculadas aos interesses e os espaço que existem entre os pontos de interesse são apenas os que estão dentro do carro, dentro do capacete, dentro do ônibus... uma inexistente densidade (graças a intensa especulação imobiliária tradicional em nossa cidade) que não faz diferença para o cotidiano enquanto o uso do espaço estiver limitado pela escala da moradia e das quatro pistas.

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bairro fundinho

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martins_rodovia_roosevelt

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Lendo sobre o que você disse sobre o Patrimônio e levando em consideração que hoje é 13 de maio, me deu vontade de comentar sobre outro domínio dos espaços: não o domínio do indivíduo. O domínio do coletivo em torno de determinada ideologia: o domínio político. A "cidade" desde sua origem tenta digerir e expurgar o bairro Patrimônio. De origem desconhecida, o antigo aglomeramento de negros recém-alforriados, aproveitados para trabalharem de salgadeiros nas charqueadas às margens do Uberabinha, trabalho que nenhum "branco" se disponibiliza fazê-los. A região era intensamente poluída pelos odores da charqueada. Os terrenos nada valiam. Mas, com a retirada desses equipamentos poluidores, a região se tornou extremamente atraente para os olhos imobiliários, que achou boas brechas no modo de vida simples dos negros: ocupavam o espaço desde o princípio da cidade, mas a própria cidade os negava: nos mapas de 1940 não havia o cadastro desse bairro. Os moradores não tinham escrituras. A água do bairro vinha de um rêgo, que alimentava todas as casas. Quando a empresa municipal de água e esgoto tentou instalar água encanada, os moradores se rebelaram e não "confiavam" numa água que não se podia ver a origem, que vinha "escondida". Nos anos 1990, com a abertura da Francisco Galassi (aliás, que nome!) várias famílias foram desalojadas e, mesmo sob protestos, tiveram suas casas destruídas por patrolas. Vários se recusaram a sair de casa, mas as patrolas não se importavam. E assim, a cidade ambiciosa vem trazendo as "melhorias" para "todos".

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  3. e o melhor, ou pior: a melhoria é sinônimo de uma casa entre milhares nos conjuntos populares. alí todos os problemas estão resolvidos. água, luz, água, luz... e avenidas largas até lá perto. e o caminho aberto para facilitar a expansão desta área, que por azar está justamente no eixo entre centro e setor sul. é uma pena!

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  4. Ariel... experimente agora, você, a vivenciar a praça Sérgio Pacheco... Essa semana estive por lá quase todos os dias fazendo levantamento... Sem brincadeira, é estranho... Diferente do que estar lá num domingo de arte na praça... Você sai do centro conturbado, quente, barulhento e caótico e entra em uma áurea, num silêncio e num clima aconchegante. Tá, nem tão silencioso, tem o barulho das folhas se batendo, da bola rolando, dos pés correndo e dos cachorros latindo e brincando, onde brincam também as crianças e me pergunto, "porque elas não estão estudando?Hoje é sexta-feira de manhã." E sinto sim que é possível um espaço coletivo, é possível e existe em meio ao centro de uma cidade tão segregada...
    Fiquei feliz,hoje!

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  5. ariel. tá tudo uma beleza só, hein? to dentro da mesa. pq vc sabe, né? eu, sou mais de...

    legal usar uma mesa pra falar de janelas.

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  6. Você tem literalmente um olhar arquitetônico e junto dele aquela sua sensibilidade de sempre!!!

    Saudades Lilo (rsrs desculpe, força do hábito....


    Bjs

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